sábado, 7 de agosto de 2010

A figura do meu pai

Menino pobre, filho de pais imigrantes da Europa via porão de navio. Mãe italiana, região da Calábria e, pai português, região dos Açores que se conheceram e se casaram no Brasil. Recebidos em fazendas da época, tornaram-se escravos de seus colonizadores. Plantavam para os senhores feudais e comiam das sobras. Manuel, meu avô era o carroceiro que transportava a colheita e minha avó, Ana Maria, a serviçal doméstica. Insuperável na cozinha em suas receitas artesanais de massas deliciosas! Sua infância foi ser aprendiz de marceneiro. Pó de serra das madeiras era jogado em seus olhos quando errava o trabalho. Em uma família de sete irmãos mais o pai e a mãe, ele contribuía com o suor de seu primeiro ofício: marceneiro. Construiu seus móveis para se casar. Ele, José marceneiro casa-se com Maria menina criada em sítio e roça que se tornou exímia costureira. Passou a ser motorista de caminhão. Estradas para o Paraná eram caminhos percorridos. Levava alimentos e trazia madeiras nobres para as fábricas de móveis da região. E assim foi edificando sua vida... Nasceu o primeiro filho: Celso. Criança linda! Olhinho azul, como o pai! Com suas viagens de caminhoneiro sustentava a família. Nessa época, idos de 1940 lugar da mulher era em casa. Minha mãe, apesar de ser uma “modista” dedicou-se à família, por excelência! Não era realizada. Lamuriava-se muito. Papai desistiu de ser caminhoneiro, pois o transporte ferroviário passou a concorrer fortemente com o rodoviário. Nessa fase, 1945... eu nasci! Era tida a princesinha dele! Mamãe contava que ele chegava e ia ao meu bercinho (feito por ele) conversar comigo! Amoroso, de uma humanidade incrível. Seu olhar dizia muito de seus sentimentos felizes e infelizes... Passou a ser “chauffeur” de praça – hoje seria taxista. Era o mais respeitado da cidade transportava pessoas da alta sociedade. Levava famílias para suas compras em São Paulo, férias na praia, pagar promessas na Aparecida do Norte, receber as bênçãos do padre Donizetti, em Tambaú, viagens de lua de mel, consultas em médicos especialistas em cidades mais desenvolvidas que Ibitinga. Era tido o motorista nº 1 da cidade. Recebeu uma homenagem dos vereadores locais, mas nunca foi recebê-la. Dizia que ser homenageado por bons serviços prestados não é honraria a ninguém. É dever de todos. Sempre nos deu exemplo de uma dignidade ímpar. Sem subornos. Ético em sua simplicidade. Semianalfabeto! Para assinar seu nome... treinava sempre e muito!! Em tábuas com carvão ou pedra cal marcava seus compromissos com um código que só ele entendia! Eram sinais meio hieróglifos. Desenhava um botijão de gás e colocava um número ao lado. Assim sabia calcular quando seria a compra do próximo! Quando faleceu li muitas coisas assim em sua garagem-oficina onde ele mais vivia. Por exemplo: “setenero um capato” = setembro um sapato! Lembro-me à noite em meu quarto... ele chegava de suas viagens... cansado... empurrava a porta do mesmo e jogava em minha cama duas a três balinhas de hortelã “Pipper”... Era a maneira dele de me dizer: “papai chegou... te amo”... Fui crescendo e acompanhando as histórias daquele homem que Deus havia escolhido para ser meu pai! Os “causos” dele, as aventuras em suas viagens eram inimagináveis! As estradas não eram asfaltadas. Se chovia tinha que enfrentar barro, carro encalhado, esperar trator para guinchar... Se não era a chuva, a poeira que muitas vezes tirava a visão da estrada. Em épocas de muitas viagens mamãe preparava um caldeirãozinho com sua comida para alimentá-lo. Em 1955 nasce o terceiro filho – o Clécio. A diferença etária entre nós, seus irmãos trouxe-nos um distanciamento. Este filho não absorveu todo um DNA modesto desta família. Nasceu e desenvolveu-se em uma época financeiramente bem melhor. Não valorizou os pais que teve... Assim, papai criou, sustentou, educou com seus exemplos, custeou nossos estudos. Ao me tornar professora não admitia ver toda a dificuldade do meu pai para ler e escrever. Então, sempre que podíamos sentávamos à mesa da cozinha, onde lia historinhas para ele e com um caderno, lápis e borracha ensinava-lhe o alfabeto, as vogais e a partir do seu nome criávamos muitas outras palavras! Encantava-se! Ele e meu irmão caçula foram meus primeiros alunos. Guardo bem lacrada essas imagens em minha vida! Uma vida simples. Rica em dignidade. Um sólido amor familiar. Não era um amor de beijos, abraços, afagos e colo. Era um sentimento puro. De olhar... De relacionar-se... De dialogar. Nossas histórias misturavam-se na prática diária de nossas vidas. Esta é a mais doce e mágica lembrança que tenho de um homem que por amor, se fez PAI! O MEU PAI! Mesmo na cama do hospital ao dar-lhe mingau de Sustagen às pequeninas colheradas, dirigia-me um olhar enternecedor: duas estrelinhas azuis que me guiam até hoje! Sua bênção, meu pai... Célia.

Um comentário:

  1. Amiga, estou chorando.... Isto não tem preço. Um dia te conto a minha. Beijos

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Célia Rangel,
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