terça-feira, 22 de março de 2011

Casarão da esquina

Sonhos e medos em um casarão antigo. Plantado em um quarteirão central. Contornado pelo acesso principal da cidade. Pela pracinha com bancos e coreto incrustados em um belo jardim. Namorados de mãos dadas contornavam-no. Promessas eternas trocadas. Sobrava amor. Faltava espaço... Dormir no casarão era uma aventura. Salas e salões abrigavam tranqueiras, utensílios das fazendas, barulhos de ratos. Morcegos também ali se hospedavam. Badaladas do sino da igreja matriz marcavam as horas. Assim, vivia-se o tempo do relógio no tempo da vida. Dormia-se pouco. O medo fazia encolher pernas, cruzar braços, estatelar olhos. Orelhas em pé como radares. Primeira luminosidade do dia pulava-se da cama. Cheiro de café torrado moído e passado na hora. Delícia revigorante. Um imenso quintal muitas brincadeiras. Uma verdadeira chácara no centro da cidade. A dona disso tudo, uma menina que tirada de uma porteira casou-se com o português que a possuiu. Era seu dono! Levou-a para casa e lá lhe ensinou higiene, a usar roupas, íntimas inclusive, realizar trabalhos domésticos, deu-lhe comida e abrigo... ao que ela retribuía fazendo amor. Em troca, ganhara muitas bonecas ao conhecer o seu português. Filhos, muitos filhos que ela entremeava com suas bonecas. Ele mais parecia pai que seu homem. Filhos eram deixados pelo espaço do casarão sem nenhum carinho ou cuidados. Pareciam bichinhos de estimação... Soltos engatinhavam. Adultos, tornaram-se pessoas de valor para a época. Major, aplicador de rendas financeiras, farmacêutico, pianista, locutora... Sumiram todos para a capital. Lá se casaram com nobrezas da sociedade. Não visitavam os pais. Noras e genros não se sentiam bem nesse nível de vida. E a mãe, lucidamente, caçoava e brincava com suas bonecas. O seu portuga viajando por suas terras férteis em promissoras regiões paranaenses... Gado. Muito gado. E, o ouro plantado: o café. Foi numa dessas travessias de boiadeiro que ele a encontrou. Ela ria de tudo. Era feliz? Sim. Ao seu modo. Não queria nada. Não pedia nada. Quando ele chegava, ela abaixava a cabeça, ajoelhava-se a seus pés, tirava suas botas e ali permanecia adorando-o. Era amor? Sim. Um amor e uma felicidade raiz. Sem comprometimento, sem cobranças. Nunca soube que se casaram oficialmente. Ele era charmant... desejável pelas raparigas da cidadezinha. Mas sempre voltava pra ela. Nunca ouvi brigarem. Pouco se falavam. Olhavam-se. Muito. Longamente. No quarto deles ela só entrava com ele. Uma tranca enorme e pesada selava o ninho de amor. Tudo muito alvo. Cobre-leitos, cortinados de filó sobre a cama e adornando isso tudo móveis riquíssimos com a superfície em mármore. Perfumes e bonecas preenchiam o ambiente. Era um local sagrado. Em suas viagens ela ficava na janela dependurada olhando dias e dias até ele voltar. Conversava com todos que passavam pela rua. Era figura conhecidíssima. Também não saia. Não me lembro. Não ia a médico. Não estudou. Primitiva. Primária. Ao extremo. Pedra bruta semilapidada... Ele morreu antes dela. Era mais velho. Ela ficou. Na janela. Até que um dia não se viu mais a figura morena queimada de sol, pequenina, cabelinhos brancos, pés descalços com sua boneca dependurada na janela. Vieram os filhos. Com muita pose e vergonha da origem. Patentes de major, aviador e tudo o mais. Abasteceram-se nas terras e mais terras deixadas pelo pai. Brigas. Muitas brigas. Aos filhos tudo! Às filhas nada! Era a lei da época. Eu tinha meus seis aninhos se tanto. Observava essas cenas. E, comparava com a minha outra vida em minha casa. Completamente diferente. Com regras e mais regras. Limites e muitas castrações. Clima pesado. No casarão havia um clima leve, natural, amoroso no ar! Marcaram minha existência. Finais de semana eram no velho e bom casarão. Sempre comida no fogão a lenha. Broas e bolinhos à vontade. Bule de ágata com café acomodado entre brasas. Mesa posta a qualquer hora que se chegasse. Era essa a decoração dessa casa. Disso tudo cuidava uma serviçal vinda de uma das fazendas, já que a “dona” só queria brincar. Numa retrospectiva nos idos de 1950 ao me deparar com 2011 – um nó cerebral aconteceu! Quem foi? Quem era mais feliz? Quem realmente buscou e desfrutou da famigerada felicidade... do amor... do bem querer? Quem? Esbarro novamente na simplicidade. Busco-a ardentemente...

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Célia Rangel,
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