terça-feira, 9 de agosto de 2011

Humildade ou Inteligência?

De estatura pequena, olhinhos azuis céu, cabelos castanhos, anelados como o dos anjos, pele morena pelo sol, ágil e sempre proativo - assim era o meu Pai - DNA do trabalho - era a sua identidade. Carpinteiro, quando jovem, construiu seus móveis para casar, inclusive berço e camas para os filhos!
Depois, como caminhoneiro e chofer de praça (denominação na época) transportou pessoas e riquezas pelo país. Não tinha dia, hora, nem tempo bom ou ruim... Enfrentava estradas barrentas ou secas demais em que a poeira deturpava a visão. Alegrava-se depois de aposentado, ao dirigir em estradas asfaltadas dizendo sempre: - que facilidade agora!

Extremamente dedicado ao seu lar provia-nos sem nada faltar. Plantava, colhia frutas e verduras. Criava galinhas e frangos em nosso enorme quintal que nos viu crescer, brincar, estudar e apanhar da mãe - a mais brava...
Papai nos olhava, sorria e nos ganhava com sua filosofia de vida: ouvir muito e só depois falar usando de metáforas. Claro que ele não sabia desse recurso linguístico, mas com sua educação primitiva, dava-nos exemplos de vida. Alimentava-nos física e espiritualmente.

Não me recordo de grandes festas, presentes caros. A cada data festiva: Páscoa, Natal, Ano Novo, aniversários, almoços domingueiros reuníamo-nos na cozinha em uma bela mesa oval, também feita por ele e, com os quitutes de minha mãe e as bebidas que ele providenciava fazíamos nossas celebrações. Sempre assim, intimista, olho no olho... Sobremesa era com as frutas do quintal colhidas e saboreadas em família. Ou, um pudim ou, um manjar preparado pela mamãe. Fazíamos um ofertório de amor e partilha entre nós. Depois ganhávamos umas moedinhas que alegremente comprávamos marmeladinhas e balinhas na venda do vovô.
Nunca se alterou! Com sábias palavras nos educava. Não sabia ler nem escrever. Para ele assinar o nome era difícil. Quando estava em casa, à noite gostava que eu lesse minha cartilha para ele que com muito interesse ouvia e seguia com o dedo, soletrando as palavras! Enaltecia a vantagem de saber ler. E, comentava sua dificuldade em ler as placas nas estradas. Sempre pedia ajuda aos passageiros! Algumas palavras conseguia ler e foi usuário do construtivismo em sua alfabetização... pois escrevia como falava! Piaget o entenderia...
Criou, educou e formou três filhos, sem nunca reclamar ou nos abandonar. Era orgulhoso disso.

Abnegado, com uma fé inabalável paralisava seu trabalho em datas religiosas como Sexta-feira da Paixão. Vestia seu único terno, gravata e o melhor sapato para acompanhar as celebrações da Semana Santa. Todo final de ano viajava com a família para Aparecida do Norte em agradecimento a Nossa Senhora pelo ano de saúde e trabalho.

Difícil era vê-lo em discussão, mas quando o fazia era com conhecimento de causa e sempre dava a última cartada. Utilizava de uma humildade que hoje classifico como inteligência emocional. Se não compactuava, silenciava-se e abandonava a contenda. Abastecia-se e, em outra ocasião retomava com peculiar sabedoria. Sua rudimentar meditação acontecia deitado sobre uma tábua, em sua garagem, isolado de tudo e de todos... Certa vez perguntei-lhe: - pai, por que você não vai se deitar na cama ou no sofá? Respondeu-me: - o corpo precisa do sofrimento para pensar melhor! Reflexão essa que guardo até hoje para mim...

Sua presença de pai, como Pai, Homem, Amigo, Amoroso, Educador pelo exemplo deixou-me marcas profundas!
Seu olhar de despedida para mim em uma cama de hospital está gravado em minha alma.
Fui feliz - tive Amor de Pai! Minha raiz!
Afetuosamente,
Célia.

15 comentários:

  1. Boa noite minha querida amiga das letras!
    Vc e sua fidalguia,rsrsrsrs,é assim que te vejo neste universo virtual...pessoas reais dentro de uma redoma,rsrsrsrsrs
    Fico imaginando vc...
    Sabia que estive doente?
    Nossa!Nem imagine ter que parar num hospital,uma pessoa como eu,que tenho uma atividade que me custa uma faixa de 18 hrs por dia...foi dificil,mas estou de volta,lenta mas conseguindo...
    Vim te buscar para visitar o blog da minha amiga Regilene...e ver o que ela fez prá mim.Se gostares add ela aos teus seguidores que é uma amiga fiel.
    Seu blog é:
    oquetragonaalma.blogspot.com
    Bjs minha querida!Depois passo aqui para fazer comentários...

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  2. Por que eu chorei no final?
    Pois é, minha história é idêntica, não sei mais passar um Natal feliz, o dia dos Pais é triste, me isolo e choro...ainda dói.
    Você escreveu um texto tão bonito que me deixou com lágrimas nos olhos, de saudades.
    Parabéns pela bela postagem,
    beijos da Mery.

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  3. Ah minha querida, me fizestes chorar, me fizestes recordar do meu amado pai, que também foi caminhoneiro, chofer de praça...e que sempre estava pronto, a qualquer hora, pra levar seus passageiros.
    Cresci também nessa simplicidade, mas amor e carinho, tinha-se de sobra.
    Desfrutei desse estar junto a todos da família na mesa.
    Frutas de nosso quintal.
    Aparecida do Norte, como morávamos pertinho, vínhamos pelo menos 2 vezes ao mês.

    Em casa, éramos 8 filhos, e fomos educados de modo ímpar.
    Papai formou 4 no ensino superior, 2 no antigo "normal" e 2 que quiseram parar no tempo, mas que se realizaram profissionalmente.
    Papai, no dia de sua partida, esperou que eu chegasse ao hospital, depois que entrei no quarto, segurou em minhas mãos, apertou e foi quando precisei sair do quarto, pois a equipe médica teve que entrar urgentemente.
    Ele estava partindo...deixando em mim uma eterna saudade.
    Desculpe, por invadir sua história com a minha...mas escrevi com alma e coração, e chorando de saudade.

    Beijos Célia.
    Tenha uma boa noite.

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  4. Olá Majoli, você não invade a minha história; apenas contribui para olharmos o quanto fomos felizes! Essas "raízes" é que fortalecem nossa existência. Expomos nossas histórias para mostrarmos o quanto a simplicidade tem de felicidade. Não há necessidade de shoppings, de restaurantes, de presentes caríssimos para demonstração de afeto! Abraço, Célia.

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  5. Oi minha grande amiga Célia. Vim aqui especialmente para agradecer tua amável visita em meu blog e dou de cara com um texto muito lindo, muito profundo e verdadeiro. Lendo o texto viajei no tempo em que meu pai também era vivo e através de seus ensinamentos me transmitiu um gama de conhecimentos, mesmo sendo ele um semi-analfabeto, pois no tempo dele (do teu também é claro) não existiam as facilidades de hoje para estudar, era no tempo da PEDRA como contava meu pai. Domingo é o dia deles e precisamos preparar uma simples mas bela homenagem para agradecer a todos eles tudo o que somos. Um grande beijo, tenha uma ótima semana.
    PS: só achei um pequeno erro no teu texto? Procurei no google e não achei a cidade de APARECIDA DO NORTE? onde fica mesmo???

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  6. Olá, Clemente! Obrigada pela generosidade de seu comentário e visita ao meu blog! Há um site
    http://www.a12.com que refere-se à padroeira do Brasil; e mais informações acesse:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Aparecida_(S%C3%A3o_Paulo)

    Aparecida, chamada não-oficialmente de Aparecida do Norte, é um município brasileiro do estado de São Paulo. O município fica na microrregião de Guaratinguetá. Sua população estimada em 2004 era de 35.754 habitantes. Possui uma área de 120,9 km² e uma densidade demográfica de 294,92 hab/km².
    Ok?
    Vale a pena uma romaria! Abração da Célia.

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  7. Uma bela homenagem. A tradição das histórias contadas de pai para filho estão se perdendo com a internet e pense: quanto você aprendeu dele te contar, bom para refletir também. Um abraço, Yayá.

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  8. Nossa, fiquei encantado com seu pai. Olha, seu texto é edificante, emocionante! abraços

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  9. Celinha, que riqueza de descrições...fazem a gente imaginar cada detalhe da tua vida..Eu tenho muito orgulho do meu pai também, e como ele me faz falta...Um beijo carinhoso

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  10. Olá Célia!
    Também eu fiquei emocionado, com esta bonita homenagem que fez ao seu pai. "O corpo precisa de sofrimento para pensar melhor" também ficará gravada na minha memória para sempre, as pessoas que mais dificuldades tiveram, foi e são as que mais valorizam cada bocadinho que a vida lhe oferece.
    Esta malta nova hoje têm tudo, e não dão valor a nada, e perderam o respeito por tudo.

    Um beijinho,
    José.

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  11. Que sorte, Célia, você teve um pai excelente! Seu texto me comoveu. Muito bonito! Esse tipo de pai merece todas as homenagens. Beijos!

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  12. Bom dia minha querida amiga das letras!
    Eu estou aqui mais uma vez,mas para agradecer sua visita ontem no cantinho da Regilene,dando seu carinho através das tuas escritas que são especiais para qualquer blogueiro;vc sabe que eu amo tudo que escreves,até as virgulas e os pontos,rsrsrsrsr
    E tua passagem tbm pelo nosso amigo Clemente,do qual ele fez todos seus seguidores orar por mim,rsrsrsr.Eu amo muito ele,por seu jeito carísmatico,familia,amigão mesmo,daquele que sentimos vontade de abrir nossas portas para ele entrar.
    Resumindo tudo isso quero só te agradecer por sua amizade que é uma joia rara de tamanha nobreza...Deixe meu espaço que depois voltarei para comentar essa sua post...
    Bjssssssssssssssssssssssssss

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  13. Nossa! Você me fez chorar, que coisa linda! Quanta sabedoria, e a fé das pessoas simples é que são agradáveis à Deus, com certeza! Você foi feliz! Parabéns!

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  14. Vi a bela rosa que representa você,Célia,
    lá no Alma do Poeta e, por um comentário seu,
    vim conhecer seus escritos. Deparo-me logo com
    uma singela e verdadeira homenagem a seu pai.
    Gosto de quem retribui, aos seus, o resultado do legado recebido. Parabéns!
    Também sou uma profissional em extinção: professora aposentada. Também gosto de reverenciar às minhas raízes.
    Eu volto, estou a lhe seguir...
    Um abraço
    Lúcia

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  15. Minha querida amiga !
    Pensei tanto que comentário ia fazer aqui...falar de pai que não está presente,não tenho palavras...
    Mas Deus me iluminou e eu trouxe para vc um poema muito lindo do Padre Fábio de Melo.

    Deus é Pai (Poema)
    Composição: Fábio de Melo

    Quando o sol ainda não havia cessado seu brilho,
    Quando a tarde engolia aos poucos
    As cores do dia e despejava sobre a terra
    Os primeiros retalhos de sombra
    Eu vi que Deus veio assentar-se
    Perto do fogão de lenha da minha casa
    Chegou sem alarde, retirou o chapéu da cabeça
    E buscou um copo de água no pote de barro
    Que ficava num lugar de sombra constante.
    Ele tinha feições de homem feliz, realizado
    Parecia imerso na alegria que é própria
    De quem cumpriu a sina do dia e que agora
    Recolhe a alegria cotidiana que lhe cabe.
    Eu o olhava e pensava:
    Como é bom ter Deus dentro de casa!
    Como é bom viver essa hora da vida
    Em que tenho direito de ter um Deus só pra mim.
    Cair nos seus braços, bagunçar-lhe os cabelos,
    Puxar a caneta do seu bolso
    E pedir que ele desenhasse um relógio
    Bem bonito no meu braço
    Mas aquele homem não era Deus,
    Aquele homem era meu pai
    E foi assim que eu descobri
    Que meu pai com o seu jeito finito de ser Deus
    Revela-me Deus com seu
    Jeito infinito de ser homem.
    Bjs minha linda!

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Célia Rangel,
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