quinta-feira, 23 de agosto de 2012

AMOR DE VELHICE







 

 
 
 
 
 
... Se você ainda não leu... não sabe o que está perdendo... “PIMENTAS – Para provocar um incêndio não é preciso fogo” – Rubem Alves

[...]

Eles moravam numa pequena cidade do interior do estado do Rio. Ele era muito querido por todos apesar da sua juventude, pouco mais de trinta anos de idade.
Ela era professora e tinha quase vinte anos quando se apaixonou por ele.
Ele era simpático, bonitão, estudioso e tímido. Ela era bela, delicada e discreta. Na década de 1930, as mulheres deviam saber esperar. Se a mulher desse o primeiro passo na direção do homem, ela seria mal falada.
Passaram-se dez anos sem que se tornassem amigos. Só se viam de longe e só trocavam as palavras essenciais. Ele não se casou. E nem ela.
Um dia, repentinamente, ela precisou partir para São Paulo. Sua irmã mais velha havia falecido e deixado três filhos ainda pequenos para criar.
Seu cunhado era um homem atraente, de olhos profundos e poucas palavras. Desnorteado, não sabia o que fazer da vida. Cuidado vai, cuidado vem, ela se afeiçoou pelas crianças e por aquele homem endurecido, que sorria pouco e lindo. Aconteceu o inevitável. Ele perguntou se ela queria casar-se com ele... Ela contou a verdade: que sentia um amor sem futuro por outro homem, mas que, se ele a aceitasse mesmo assim, ela se casaria com ele.
Ele aceitou. Casaram-se, tiveram outros filhos e viveram relativamente bem.
Depois de muitos anos e alguns netos, um dia ela recebeu um telefonema surpreendente. Era a irmã do então jovem médico que a estava avisando que ele tinha se mudado para São Paulo. Velho e doente, queria vê-la. Com as  mãos trêmulas, anotou  o endereço e com o coração agitado procurou seu marido e contou o que estava acontecendo.
Para sua surpresa, o marido imediatamente se levantou, vestiu o paletó e disse: Vamos!
Seguiram para o hospital. O marido a deixou na porta do quarto, avisando-a que a esperava no saguão.
Tiveram então, os dois, a primeira longa conversa de suas vidas. Ele confessou que a havia amado a vida inteira e que só a proximidade da morte lhe dera a coragem de se aproximar.
Não se sabe o que se passou nem o que sentiram quando se viram velhos e amados um pelo outro – certamente seguraram-se as mãos – a vida inteira. Os apaixonados de vida inteira voltaram a se ver e foram se vendo até que o médico morreu, algumas semanas mais tarde, sorrindo por se sentir amado.
A beleza das flores que florescem no inverno está no seu perfume e na sua delicadeza. Mas é uma beleza triste que floresce e perfuma durante a noite e está morta pela manhã.

16 comentários:

  1. Oi Célia, que estória linda e triste!
    O amor assim é eterno, pois ficou latente a vida toda não é mesmo?
    Muito boa a sinopse!
    Até deu vontade de ler!
    Abraços minha linda amiga querida!

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  2. Un bello relato mi querida Célia, es sorprendente cuánto poder tiene el amor.
    Gracias.
    Con ternura
    Sor.Cecilia

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  3. Linda história de amor!
    Amar, mesmo em silêncio, dignifica qualquer
    ser humano, ainda que se apresente no outono da vida...

    Um beijo, Célia,
    da Lúcia

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  4. Oii Célia, vou ler Rubem Alves com certeza, adoro!
    Que história triste essa, muito ruim passar a vida assim sufocando um amor, e se despedir antes da morte, que triste! Mas tiro o chapéu é p o marido que a acompanhou, esse sim ama de verdade! Adorei! bjoooss

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  5. Minha querida

    Uma história de amor que vai perdurar pela eternidade...Muito lindo esse amor.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  6. Bom dia, Célia. Que triste! A não aproximação fez com que ambos não tivessem uma vida realizada e feliz!
    A frustração é um dos piores sentimentos que alguém pode carregar nessa vida, mas pelo menos, na alma, eles foram leais ao sentimento que possuíam um pelo outro.
    Beijos na alma e fique com Deus!

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  7. Grande texto! E ainda há flores crescendo em lugares que nem imaginamos! abraços

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  8. Lindo e triste texto.Valeu ler! beijos,tudo de bom,chica

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  9. Célia hoje você nos privilegiou com esta história linda porém triste também...rsrsrs
    grande abraço!

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  10. Gosto do Rubem Alves, Célia, mas desconfio que o médico moribundo teria sobrevivido se o marido da protagonista não tivesse, discretamente (mas tão discretamente que nem o próprio Rubem Alves percebeu), desligado seus aparelhos ou pisado no seu tubo de oxigênio. ;-)
    Moral da história: melhor ficar falada do que virar protagonista de tristes amores indecisos. :)
    Desculpe as brincadeiras. Gosto mesmo do Rubem Alves. Beijos!

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  11. Célia, essa narrativa emociona e toca o coração. Por ela, com o exemplo de amor verdadeiro, aqui apresentado, podemos sentir a força que o amor pode ter e exercer sobre duas pessoas que se amam. Muito lindo. Um beijo no seu coração.

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  12. Passei para deixar um beijo e desejar um lindo final de semana.

    Ani

    http://cristalssp.blogspot.com.br

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  13. Celia,eu ainda não li,mas já anotei porque adorei sua dica!bjs e bom final de semana!

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  14. Bom dia minha amiga das letras !!!!!
    Texto edificador...com cheiro dos desejos que toca um coração que se avalia sempre...
    Rubem Alves é um dos meus preferidos...e vc como sempre me surpreendendo nas escolhas...apesar de triste,mas nos instiga pela beleza...
    bjssssssssss

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  15. Quero ler esse livro.Já me disseram dele, e, agora com a sua postagem,
    vou apressar a aquisição.Depois falaremos dele.
    Beijo.

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Obrigada, meu abraço,
Célia Rangel,
Autora responsável pelo blog.
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