terça-feira, 28 de agosto de 2012

"Candidato, o Cândido"...


Meu amigo Elba me deu uma surpreendente informação etimológica: a palavra “candidato”, nas suas origens, vem de “cândido”. O candidato tinha de ser cândido, puro. Há um produto de limpeza chamado “cândida”. Sei dos seus poderes para limpar as coisas de cozinha. Não sei se, ingerido, teria o poder de tornar “cândidos” os candidatos. Desconfio. Parece que existe um projeto no sentido de proibir a candidatura dos candidatos de mãos sujas. Sou cético sobre os seus resultados. Candidatos de mãos sujas não aprovam leis que proíbam “mãos sujas”.

Dirão que estou padecendo do pessimismo dos velhos. Mas Albert Camus era muito jovem, tinha apenas 33 anos de idade, quando escreveu o seguinte: “Cada vez que ouço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, que jogam com toda uma parte da sua vida e dos seus interesses chamados vitais.”

Guimarães Rosa sentia também o que sinto. Numa entrevista a Günter W. Lorenz ele disse o seguinte: “Eu não sou um homem político, justamente porque amo o homem. Os políticos estão sempre falando de lógica, razão, realidade e outras coisas no gênero e ao mesmo tempo vão praticando os atos mais irracionais que se possa imaginar. Talvez eu seja um político, mas desses que só jogam xadrez quando podem fazê-lo a favor do homem. Ao contrário dos “legítimos” políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. Sou um escritor e penso em eternidades. O político pensa apenas em minutos. Eu penso na ressurreição do homem.”

Não é por acidente que Guimarães Rosa tenha comparado a política ao jogo do xadrez. No xadrez pouco importa o estilo do jogador. Qualquer que seja o estilo, a lógica do jogo é sempre a mesma. Quem se dispõe a jogar o jogo tem de se submeter à sua lógica. O Lula estava certo: se Jesus estivesse na política ele teria de fazer pactos com Judas. A lógica do jogo da política é a lógica do jogo do poder. Enganam-se aqueles que pensam que o fim da política é a produção do bem comum. O objetivo da política é o poder - e os atos políticos dirigidos à produção do bem comum são apenas meios para se atingir esse fim que é ou a tomada do poder ou a manutenção dos poderosos no poder. “Os fins justificam os meios”, disse o mestre da política Maquiavel. Um ato que levasse ao bem comum mas que, ao mesmo tempo, diminuísse o poder dos que estão no poder, ou aumentasse o poder dos adversários políticos seria, do ponto de vista político, um ato suicida: não deveria, jamais, ser executado. Na hierarquia dos valores políticos o bem do povo é inferior ao exercício do poder. Essa é a razão porque, com freqüência, políticos tratam de eliminar as coisas boas que seus antecessores, adversários, realizaram. É a forma aceitável de assassinato: matar pelo esquecimento.

O ideal de ética na política não pode ser realizado. Somente os fracos invocam os argumentos éticos. Porque eles são a única arma de que dispõem.

Já se disse que a guerra é a continuação da política por meio da violência. Isso é verdade. Política e guerra é o mesmo jogo. A diferença está em que enquanto na política o poder aparece disfarçado pela aparência de paz, na guerra o poder perde os seus pudores e se apresenta na sua nudez: a violência.

Da mesma forma como é inútil trocar os jogadores, porque o xadrez continuará a ser jogado com as mesmas regras, a troca de políticos e de partidos tem apenas o efeito de mudar o estilo do jogo, sem alterar a sua essência. Se eu estivesse no lugar do presidente as regras do jogo do poder me obrigariam a abraçar os mesmos políticos que, em tempos passados, execrou. Naqueles tempos eles eram inimigos a serem destruídos; mas agora eles são possíveis aliados que devem ser abraçados.

A razão filosófica para a existência dos três poderes independentes nas democracias não se deriva de necessidades funcionais. Deriva-se da necessidade de espionagem constante: é preciso que os que estão no poder se vigiem uns aos outros. Na política o comportamento ético é um resultado do medo de ser apanhado com a boca na botija. (mesmo apanhados com a boca na botija os políticos não se enrubescem...)

Mas — eu me pergunto — e se os três poderes forem, todos eles, compostos por raposas? Raposa não vigia raposa. Raposa se alia a raposa...

[Fonte: Rubem Alves, pg.:140-142 - lv.: Pimentas]

14 comentários:

  1. Oii Célia, gente então candidato vem de pureza, kkkkk meu Deus que ironia isso, o que menos temos na politica são candidatos candidos rsrsr, concordo com Guimarães Rosa, os políticos pensam apenas nos segundos, aqueles segundos do deposito do salário rrsr! Que me perdoem as exceções que eu sei que há! Bjoooooss

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  2. Parece até que é brincadeira o significado da palavra. Oras.
    Qual é candido? Não percebo nenhum.
    E que venham as eleições!

    Beijos e abraços
    Canela
    Ü

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  3. Célia, li todo o texto, pois é, parece mesmo que não tem jeito, candidato = pureza, quem diria que seria assim, "os puros vão e voltam", ora situação ora oposição e assim vão, cada qual pensando somente em seu quinhão.
    Não dá mesmo para acreditar em políticos, há sim exceções!
    Abraços amiga, bom post, aprendi aqui!

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  4. Oi Célia,

    Estou lendo esse livro e adorei esse texto. Foi de uma lucidez impar e totalmente adequada ao nosso contexto. Espero um dia pensar de forma diferente, mas a propria história não nos permite.

    Boa quarta e beijos.

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  5. Célia, estou com problemas para ler o seu Google mais 1, tento comentar e aparece o texto comentário bloqueado. Peço desculpas, mas precisava te avisar porque talvez o problema ocorra com outros blogueiros. Lembro que aprendi que o objetivo da política era patrocinar o bem comum considerando as desigualdades e necessidades da maioria e dos grupos minoritários, foi o que eu decorei e uso todo o tempo da propaganda eleitoral para me definir, quero estar consciente. Política enquanto filosofia partidária eu não gosto, posso ser considerada tacanha, mas voto no candidato, não no partido. Beber, não bebo, posso votar sóbria:) Um abraço, Yayá.

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  6. Oi Célia,

    eu gosto de tudo que o Rubem Alves escreve. E este texto é de uma qualidade impecável. Infelizmente, nosso querido Rubem Alves não menteiu nem aumentou nada do que acontece de fato. Triste e real.

    Grande abraço e obrigada pelo carinho de sempre no Palavras.

    Leila

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  7. Quem inventou o formato de poder, não perde as mãos para os súditos! abraços

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  8. Célia,

    Antes de ler o texto quero dar-lhe um abraço carinhoso
    E passar-lhe a energia da minha amizade
    E agradecer-lhe por estar na minha vida deixando a sua
    Em palavras de estimulo que me alimentam,
    Para que eu possa extravasa-la em poesia...

    Obrigada sempre!

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  9. Celia,excelente sua escolha desse texto!Não teria um momento mais apropriado!A candura dos candidatos,infelizmente,já ficou para trás há muito tempo!bjs e boa semana!

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  10. Olá!Bom dia!
    Tudo bem,Célia?
    ... entregar uma cópia para cada candidato!Quem sabe,eles lendo os "pensamentos" de
    Camus,Guimarães Rosa...
    Ruben Alves, sobre o tema ” O sonho dos ratos”, esta história é igual aos nossos candidatos "cândido"
    “Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha.
    ...todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso e que estava bem pertinho de seus focinhos.
    Comer o queijo seria a suprema felicidade…”
    Bela escolha!
    Boa quarta feira!
    Beijos

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  11. Um senhor texto, hein, Célia? "Somente os fracos invocam os argumentos éticos." Que dolorosa verdade! Gostei muito. Beijos!

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  12. Um ótimo texto para reflexão!
    Deus a inspire sempre mais!
    Um grande e forte abraço, recheado de carinho,
    Angela

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  13. Extraordinário texto, numa época tão carente de reflexão.

    Não posso e não quero ficar descrente de tudo: ainda há candidatos "cândidos"...

    Um abraço, Célia
    da Lúcia

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  14. Com algumas pitadas de humor, o texto retrata na íntegra o que é nossa política.
    Viva! Rubem Alves...não há candidatos cândidos. Esse meu pensamento não é descrença,
    é a engrenagem dessa máquina que já está podre...e o povo não quer "se mexer"!
    beijo.

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Saiba que aprendo muito com você.
Obrigada, meu abraço,
Célia Rangel,
Autora responsável pelo blog.
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