sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SILÊNCIO

“... conhecimento da fala mas não do silêncio,
conhecimento das palavras e ignorância da Palavra...”
T.S. Eliot

Uma bolha sobe do fundo do mar...
Uma palavra sobe das funduras do nosso silencio
inesperada,
impensada,
emissária de um mundo esquecido,
perdido:
suspiro,
nosso mistério,
nossa verdade,
oração.

Há palavras que dizemos porque delas nos lembramos.
Possuídas, guardadas, ficam lá, à espera,
e vêm, obedientes, como animais
domésticos...

Mas há palavras que não dizemos:  elas se dizem,
apesar de esquecidas.
Não são nossas:
moram em nós, sem permissão, intrusas
e não atendem a nossa voz.
São como o Vento,
que sopra onde quer.
E não sabemos nem como veio e nem para onde vai.
Só ouvimos o sopro.
Nós dizemos: só ouvimos.
Assim as palavras da oração, esquecidas:
Elas se dizem.
Fica a surpresa de que um pássaro selvagem como aquele
more em nós sem que o soubéssemos.

A palavra que diz a nossa verdade não habita em nosso saber.
Foi expulsa da morada dos pensamentos.
Sua aparência era estranha, dava medo.
Agora habita em porões,
mais no fundo:
longe do que sabemos,
ali, onde não pensamos,
ao abrigo da luz diurna,
no lugar dos sonhos,
suspiros sem palavras.

Elas são tímidas.
Não se misturam.
Falam uma língua estranha.
Babel,
que não entendemos,
e dizem do ar frio das montanhas
e da escuridão dos abismos.
Mas somos moradores das planícies
onde todos falam para não ouvir...

Temos medo das palavras que habitam as bolhas submarinas.
Por isso falamos.
Matracas: ferro na madeira;
clate/ clate/ clate/ clate/ clate,
palavras
contra a
Palavra.
Horror ao silêncio: nele moram as palavras de que fugimos:
Sobem do fundo do mar quando se sabem sozinhas...

Ensina-nos a orar porque já não sabemos...

Quando orares
não sejas como os artistas de palco:
falam das palavras que não são suas, de outros,
decoradas,
e os seus rostos não são rostos,
máscaras.
Não querem ouvir as próprias palavras
(porque são ocos, não as têm...).
Seus ouvidos só ouvem os aplausos:
moscas, prisioneiros das teias alheias...

Entra no silêncio,
longe dos outros
e ouve as palavras que se dirão
depois de uma longa espera...
Terias coragem de exibir tua nudez frente aos estranhos?
Eles irão rir...
Como, então, poderias orar na sua frente?
Oração, nudez completa,
palavra que sobe do fundo do escuro
e revela...
Perante Deus...
Somente ele tem olhos mansos o bastante para
contemplar a nossa nudez e continuar a dizer:
“É muito bom que você exista...”
Nem mesmo nós...

Entra no silêncio
longe das muitas palavras
e escuta uma única Palavra
que irá subir do fundo do mar.
Uma única Palavra é mais poderosa que muitas:
pureza de coração é desejar uma sócoisa...
Uma única Palavra:
aquela que dirias
se fosse a última a ser dita.
Basta ouvir uma vez e, então,
o silêncio...
Como Vênus, brilhante,
na imensidão azul do sol poente...
Antes que tu a tivesses ouvido,
o seu suspiro já reverberava pela eternidade...
Enquanto ela morava no teu esquecimento,
Deus já a ouvia
e tremia...

Faze silêncio...
Ouve...


Fonte:
ALVES, Rubem

Pai Nosso – Ed.Paulus – São Paulo, 1987

10 comentários:

  1. Uau! Lindo demais, Célia. Lembra, ao mesmo tempo, Pe. Zezinho e Paulo Bonfim. Beijos!

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  2. Adoro poemas sobre as palavras! Adoro as palavras. E estas estão muito bem empregues.

    Boa escolha, Célia. Beijinhos

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  3. Oi Célia querida


    Que linda escolha...
    Nunca tinha lido esse poema...

    Lindas palavras.


    Beijos e bom final de semana.
    Ani

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  4. Lindo, profundo, maravilha como tudo de Rubens! bjs, chica

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  5. Celia,escolheu o mestre dos mestres! Magnífica essa poesia e como é verdade! Na oração nos desnudamos diante do outro e como as palavras não são nossas! bjs,

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  6. Boa noite, Célia, você foi muitíssimo feliz em sua escolha do poema do nosso maravilhoso Rubem Alves. Tantas são as palavras que nos perdemos em seu significado.Há uma estrofe de música assim:"Palavras são palavras e nada mais....", mas elas são tudo,pois têm poder. Tenha uma linda noite! Grande abraço!

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  7. OI CÉLIA!
    RUBEM ALVES, MESTRE POETA, UM ENCANTO DE POEMA AMIGA.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  8. Célia, adorei ler aqui, bela escolha, adoro ler Rubem Alves, sempre nos ensina algo, as palavras são tudo, elas expressam além do nosso olhar, muitas vezes podemos dizer com os olhos, mas nem todos os sabem ler né mesmo?
    Abraços linda amiga de alma linda!

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  9. Célia, sinta-se vendo-me aplaudindo de pé este poema. Que lindo, meu Deus!
    Amei.
    Obrigada por compartilhar.

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Célia Rangel,
Autora responsável pelo blog.
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