sábado, 13 de setembro de 2014

Lembranças... de Primavera... Saudade...




 

OS IPÊS-AMARELOS

Rubem Alves

Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: "E quem é Rubem Alves?". Um menininho respondeu: "O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos...". A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.

Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores... Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão...), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme "Moça com Brinco de Pérola"), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.

Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.

Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: "Rosa de água com escamas de cristal...".

Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.

Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.

Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.

Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...

11 comentários:

  1. Lindo texto, lindos ipês! Saudades mesmo! bjs, chica e ótimo fds!

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  2. No Ipê Amarelo, vi Rubem Alves, como ele queria...
    -Merecido tributo!
    Feliz final de semana, Célia...meu abraço.

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  3. CÉLIA,

    Rubem Alves falecido recentemente,um homem de um inteligência superior ao qual dedico minhas leituras frequentes.

    E quando ele diz que faz fotografias com a s palavras estava referido-se também a um dos seus mais belos parágrafos que peço licença para transcrever:

    -“É mais fácil amar o retrato. Eu já disse que o que se ama é a ‘cena’. ‘Cena’ é um quadro belo e comovente que existe na alma antes de qualquer experiência amorosa. A busca amorosa é a busca da pessoa que, se achada, irá completar a cena. Antes de te conhecer eu já te amava.... E então, inesperadamente, nos encontramos com rosto que já conhecíamos antes de o conhecer. E somos então possuídos pela certeza absoluta de haver encontrado o que procurávamos. A cena está completa. Estamos apaixonados”

    Um abração carioca e belíssima escolha!!!

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  4. PS. Célia, não sei por onde andava minha cabeça,pois só hoje identifiquei que não era seu seguidor!

    Que absurdo, que erro imperdoável.

    Corrigi.

    Um abração carioca.

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  5. Que texto mais lindo! E não há como não lembrar de Rubem Alves ao ver um ipê amarelo! bjs,

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  6. Olá, querida Célia
    Que escolha feliz vc fez!!!
    Post divino!!!
    Bjm fraterno

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  7. Lindo domingo novo Célia!
    Estou lendo sua postagem
    com calma
    e depois quando absorver
    eu volto para comentar,
    combinado?
    Adoro ipês!
    Bjins
    CatiahoAlc.

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  8. Depois dos Ipês Amarelos, disse Deus: um texto para se meditar, admirar, beber...
    Que magnífica a tua escolha, Célia! Parabéns.


    Beijos


    SOL

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  9. Boa tarde!
    Amiga, ultimamente demoro nas visitas é que já não sou mais nenhuma jovem, mas como ainda estou na ativa, em sala de aula, requer que esteja sempre atualizada, não só eu como todos os colegas, estamos fazendo um curso aos sábados e consequentemente ficam muitas tarefas nos finais de semana.
    A Jovem que estava comigo a alguns anos, considerando da família, pois tinha toda minha confiança, mudou de endereço e ainda estou só com os afazeres de casa. Justifico, porque em algumas vezes não uso da mesma gentileza nas visitas como gostaria. Entro no face porque é bem mais rápido. Nos Blogs, organizo as postagens quando me sobra um tempinho e sempre estou visitando com um comentário colado o qual peço desculpas.
    O importante é que está aqui é um prazer e acima de tudo um novo aprendizado com suas postagens.
    Abraços, um domingo de paz e um início de semana iluminado pela Luz Divina.
    Lourdes Duarte.
    http://professoralourdesduarte.blogspot.com.br/
    http://filosofandonavidaproflourdes.blogspot.com.br/

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  10. Oi, Célia! Sempre achei lindos os ipês amarelos. Agora vai ser difícil olhar pra eles sem me lembrar desse texto. Beijos!

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  11. Magnífico!
    E o último parágrafo quase me matou...Eu também penso, penso...
    Beijos, Célia.

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Obrigada, meu abraço,
Célia Rangel,
Autora responsável pelo blog.
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