quinta-feira, 20 de novembro de 2014


 “Deus,

Minhas mãos estão velhas.

Nunca disse isso antes em voz alta

Mas estão.

Antes eu sentia tanto orgulho delas.

Eram macias

Como a maciez aveludada

De um pêssego firme e maduro.

Sua maciez agora é mais como a dos lençóis velhos

Ou das folhas murchas.

Quando foi que mãos esguias e graciosas

Como aquelas

Tornaram-se estas garras

Encolhidas e recurvadas?

Quando, Deus?

Aqui pousam elas em meu colo,

Lembranças cruas deste desgastado

Corpo que me serviu tão bem!

Quanto tempo faz desde a última vez

Em que alguém me tocou?

Vinte anos?

Há vinte anos sou viúva

Respeitada.

Objeto de sorrisos.

Nunca, porém tocada.

Nunca trazida para tão perto que a solidão

Se dissipasse.

Lembro-me do modo como minha mãe costumava me segurar,

Deus.

Quando estava com minha carne ou meu espirito doendo

Ela me puxava para muito perto de si,

Alisava meu cabelo sedoso,

E acariciava-me nas costas, com o calor de suas mãos.

Oh, Deus, estou tão só!

Lembro-me do primeiro rapaz que me beijou.

Éramos os dois tão inexperientes!

Sabor de lábios juvenis e pipoca,

Sensação íntima de mistérios por virem.

Lembro-me de Hank e dos bebes.

De que outro jeito posso lembrar-me deles,

Senão juntos?

Das desajeitadas e ávidas tentativas de

Amantes novos brotaram os bebês.

E conforme cresciam, crescia nosso amor.

E, Deus, Hank parecia não se importar

Que meu corpo tivesse perdido um pouco de seu brilho e elasticidade.

Ela ainda o amava.

E o tocava.

E não nos importávamos por não estarmos mais tão lindos.

E as crianças abraçavam-me tanto.

Oh, Deus, estou sozinha.

Deus, porque não criamos as crianças para serem tolas

E afetuosas assim como dignas e adequadas?

Sabe, elas fazem o que devem,

Dirigem seus belos carros

Vêm ate meu quarto em sinal de respeito.

Sua conversa é animada, recordam-se

Mas não me tocam.

Chamam-me “Mamãe”, “Mãe” ou “Vovó”

Minnie, jamais.

Minha mãe chamava-me Minnie.

Meus amigos também.

Hank me chamava também de Minnie.

Estes porém já se foram.

Como Minnie, que se foi.

Só Vovó restou,

Deus!

E como ela está só!"

 

Fonte: “TOCAR”: o significado humano da pele / Ashley Montagu – São Paulo, Summus, 1988

Poema extraído de Images, Women in Transition, copilado por Janice Grana, Winona,  Minesota, St. Mary’s College Press, 1977: pg.: 374

 

 

14 comentários:

  1. Noooooooooooossa! Que maravilhoso esse poema. Profundamente tocante. Chega a dar um nó na garganta! triste quem assim se sinta e tomara assim não fiquemos! beijos,chica

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  2. Concordo, Chica! Por essas e tantas outras que temos que alicerçar nossa vida em Deus, pois o mais são maquiagens de cada ciclo da vida! Obrigada, por sua leitura e comentário, sempre incentivadores.
    Abraço.

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  3. Cada dia mais gosto de suas postagens. Sinto-me tocada por elas.
    Mais uma vez, obrigada, Célia.
    Um abraço!

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    1. O ato de ler sempre agrega descobertas valiosas, Regina!
      Obrigada!
      Abraço.

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  4. Feliz escolha! O poema é divino e encantador...

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    1. Sim, Viviani é um poema que evoca a realidade.
      Obrigada!
      Abraço.

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  5. Que lindo Célia, e emocionante, na minha adolescência eu era chamada de Kellinha pelos amigos, hoje um ou outro daquela época ainda me chama assim... eu acho muito estranho ser chamada de senhora, não gosto, posso até já ser uma senhora por fora, refletida nos meus 42 anos, mas por dentro me sinto uma jovem de 20 anos apenas um pouco mais amadurecida kkkkkkk odeio o tal senhora! rssrs bjosssss

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  6. Interessante suas colocações, pois quando temos espírito jovem, somos atualizadas, atuantes... incomoda-nos o "senhora"... o "idosa"... o "terceira idade"... Afinal, estamos vivas, temos nomes e somos "pessoas"! Obrigada, por seu comentário! Adorei e compactuo!
    Abração.

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  7. Esta é a história de tantas e tantas «mamães» e «vóvós». O toque é tão importante! Foi tarde que entendi isso.

    Beijos, Célia amiga.

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    1. TOCAR - é um livro que abre horizontes para o nosso OLHAR ao outro e à nós mesmos. Obrigada, Graça, pelo seu depoimento! Sempre é tempo...
      Abraço.

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  8. O diálogo com Deus nos humaniza!
    Grande abraço!

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  9. Sempre! É a única forma de lapidarmo-nos!
    Obrigada, Anderson, por sua presença e comentário, incentivadores!
    Abração.

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  10. Olá, querida Célia
    Quantas 'vovós' sentem tudo isso e engolem caladinhas...
    Um belo poema representando a voz das 'mais vividas'...
    Bom fim de semana!!!
    Bjm fraternal

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  11. OI CÉLIA
    Que lindo vc como sempre consegue se expressar muito bem.Sempre nos acalma coversar com Deus. Feliz começo de semana. Bj
    Ana

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Célia Rangel,
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