domingo, 31 de agosto de 2014

HÁ DE SE CUIDAR DA AMIZADE E DO AMOR


 
A amizade e o amor constituem as relações maiores e mais realizadores que o ser humano, homem e mulher, pode  experimentar e desfrutar. Mesmo o místico mais ardente só consegue uma fusão com a divindade através do caminho do amor. No dizer de São João da Cruz, trata-se da experiência da “a amada (a alma) no Amado transformada”.

 

Há vasta literatura sobre estas duas experiências de base. Aqui restringimo-nos ao mínimo. A amizade é aquela relação que nasce de uma ignota afinidade, de uma simpatia de todo inexplicável, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas se cria uma como que comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confiança e da lealdade. A amizade possui raízes tão profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se os amigos e amigas, os tempos se anulam e se reatam os laços e até se recordam da última conversa havida há muito tempo.

 

Cuidar da amizade é preocupar-se com a vida, as penas e as alegrias do amigo e da amiga. É oferecer-lhe um ombro quando a vulnerabilidade o visita e o desconsolo lhe oculta as estrelas-guias. É no sofrimento e no fracasso existencial, profissional ou amoroso que se comprovam os verdadeiros amigos e amigas. Eles são como uma torre fortíssima que defende o frágil castelo de nossas vidas peregrinas.

 

A relação mais profunda é a experiência do amor. Ela traz as mais felizes realizações ou as mais dolorosas frustrações. Nada é mais misterioso do que o amor. Ele vive do encontro entre duas pessoas que um dia cruzaram seus caminhos, se descobriram no olhar e na presença e viram nascer um sentimento de enamoramento, de atração, de vontade de estar junto até resolverem fundir as vidas, unir os destinos, compartir as fragilidades e as benquerenças da vida. Nada é comparável à felicidade de amar e de ser amado.  E nada há de mais desolador, nas palavras do poeta Ferreira Gullar, do que não poder dar amor a quem se ama.

 

Todos esses valores, por serem os mais preciosos, são também os mais frágeis porque mais expostos às contradições da humana existência.

 

Cada qual é portador de luz e de sombras, de histórias familiares e pessoais diferentes, cujas raízes alcançam arquétipos ancestrais, marcados por experiências bem sucedidas ou trágicas que deixaram marcas na memória genética de cada um.

 

O amor é uma arte combinatória de todos estes fatores, feita com sutileza que demanda capacidade de compreensão, de renúncia, de paciência e de perdão e, ao mesmo tempo, comporta o desfrute  comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro. A experiência do amor serviu de base para entendermos a natureza de Deus: Ele é amor essencial e incondicional.

 

Mas o amor sozinho não basta. Por isso São Paulo em seu famoso hino ao amor, elenca os acólitos do amor sem os quais ele não consegue subsistir e irradiar. O amor tem que ser paciente, benigno, não ser ciumento, nem gabar-se, nem ensoberbecer-se, não procurar seus interesses, não se ressentir do mal… o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta… o amor nunca se acaba(1Cor 13, 4-7). Cuidar destes acompanhantes do amor é fornecer o húmus necessário para que o amor seja sempre vivo e não morra pela indiferença. O que se opõe ao amor não é o ódio, mas a indiferença.

 

Quanto mais alguém é capaz de uma entrega total, maior e mais forte é o amor. Tal entrega supõe extrema coragem, uma experiência de morte, pois não retém nada para si e mergulha totalmente no outro. O homem possui especial dificuldade para esta atitude extrema, talvez pela herança de machismo, patriarcalismo e racionalismo de séculos que carrega dentro de si e que lhe limita a capacidade desta confiança extrema.

 

A mulher é mais radical: vai até o extremo da entrega no amor, sem resto e sem retenção. Por isso seu amor é mais pleno e realizador e, quando se frustra, a vida revela contornos de tragédia e de um vazio abissal.

 

O segredo maior para cuidar do amor reside no singelo cuidado da ternura.  A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos que revelam o carinho, de sacramentos tangíveis, como recolher uma concha na praia e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela.

 

Tais “banalidades” tem um peso maior que a mais preciosa joia. Assim como uma estrela não brilha sem uma atmosfera ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive sem um aura de enternecimento, de afeto e de cuidado.

 

Amor e cuidado formam um casal inseparável. Se houver um divórcio entre eles, ou um ou outro morre de solidão. O amor e o cuidado constituem uma arte. Tudo o que cuidamos também amamos. E tudo o que amamos também cuidamos.

 

Tudo o que vive tem que ser alimentado e sustentado. O mesmo vale para o amor e para o cuidado. O amor e o cuidado se alimentam da afetuosa preocupação de um para com o outro. A dor e a alegria de um é a alegria e a dor do outro.

 

Para fortalecer a fragilidade natural do amor precisamos de Alguém maior, suave e amoroso, a quem sempre podemos invocar. Daí a importância dos que se amam, de reservarem algum tempo de abertura e de comunhão com esse Maior, cuja natureza é de amor, aquele amor, que segundo Dante Alignieri da Divina Comédia “move o céu e as outras estrelas”  e nós acrescentamos: que comove os nossos corações.

 

Leonardo Boff


 

 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Fábula do dia!




A Fadinha, o Playboy e a Tia Zangada...

Que desastre! A TV ontem promoveu uma sessão de descontinuidade e de tantas regras que o dito pelo não dito se tornou irrelevante.

A Fadinha promete com sua varinha mágica, endireitar o país apenas com a união de todos...

O Playboy, com todo o seu característico cinismo, implode o que ai está em uma verborragia romanceada do que somos, porque fomos os melhores...

A Tia Zangada se contorce toda com suas caretas pós-botox, hiperproduzida e maquiada, em sua ginástica poli dance para deixar esclarecido que, na floresta, o Rei Leão pode até estar zangado, mas aplaude contestando que tá tudo muito bem...
Mais triste ainda era vermos uma borboleta, que não sabia a que viera, e passarinhos desalojados que bicavam migalhas tentando gorjeios...

E, eu a tonta do lado de cá da telinha, achando que iria ver algo novo, diferente, contagiante e motivador para meu passeio às urnas, recebi bênçãos de um pastor e tentei conciliar o sono... ou pesadelo?  Durma-se com um barulho desses!!

Isso tudo... ao vivo e à cores.   

Socorro, minha gente, o Brasil é muito mais que esses que querem nos representar!

Célia Rangel.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Os Sapos indecisos



Se existem três sapos numa folha e um deles decide pular para a água, quantos sapos restarão na folha?
A resposta certa é: três sapos, porque um sapo tão somente decidiu pular. Ele não pulou de fato.
Não somos muitas vezes como o sapo? Decidimos fazer isso, e aquilo, mas no final acabamos não fazendo nada.
Na vida é preciso tomar muitas decisões. Algumas fáceis, outras difíceis. Os erros que cometemos, no entanto, não são fruto de decisões erradas, mas sim das nossas indecisões. Temos de conviver com a consequência das nossas decisões. Isso é arriscar... Tudo é arriscar!
Rir é correr o risco de parecer um tolo. Chorar é correr o risco de parecer sentimental. Abrir-se para alguém é arriscar em envolvimento.
Expor sentimentos é correr o risco de revelar a si mesmo. Expor ideias e sonhos é arriscar-se a perde-los. Amar é correr o risco de não ser amado.
Viver é correr o risco de morrer. Ter esperanças é correr o risco de se decepcionar. Tentar é correr o risco de falhar.
Os riscos precisam ser enfrentados, pois na vida o maior fracasso é nada arriscar.
A pessoa que não arrisca nada, que não faz nada, não tem nada, ela não é nada. Pode evitar o sofrimento e a dor, mas não aprende, não sente, não muda, não cresce.
Não vive. Presa à sua servidão, ela é uma escrava que teme a liberdade. Apenas quem arrisca é livre.
 
* O pessimista queixa-se dos ventos...
   O otimista espera que os ventos mudem...
   O realista ajusta as velas...
 
Fonte: "Nunca deixe de sonhar: você é do tamanho do seu sonho"
            Vários autores 

domingo, 24 de agosto de 2014

Ventos...


Ventos de agosto,

trazem ares de profundas marcas.

Ventos de agosto,

provam nossa existência.

Ventos de agosto,

arejam nossas mentes.

Ventos de agosto,

desequilibram nossa tranquilidade.

Ventos de agosto,

transformam sementes em vida.

Ventos de agosto,

chegam furiosos e se acalmam em quentes aragens.

Ventos de agosto,

Podem desgostar, mas sinalizam vida.

 

Célia Rangel

sábado, 23 de agosto de 2014

Contemplação de Vida!


VOLTA AO LAR

 

INTRODUÇÃO da parte I (O problema da criança interior ferida)

 

Buckminster Fuller, um dos  homens mais criativos do nosso tempo, gostava de citar o poema sobre a infância, de Chirstopher Morley.

 

O maior poema conhecido

Que todos os poetas ultrapassaram:

É a poesia inata, não contada

De ter apenas quatro anos.

 

Novo demais ainda para ser parte

Do grande coração impulsivo da natureza,

Nascido amigo do pássaro, do animal e da árvore

E tão descontraído quanto uma abelha –

 

Mas com a razão bela e hábil

Cada dia um paraíso a ser construído

Eurófico explorador de cada sentido

Sem desânimo, sem fingimento!

 

Nos seu solhos limpos e transparentes

Não há consciência, nem surpresa:

Os estranhos enigmas da vida você aceita,

Sua estranha divindade mantida...

 

E a vida, que vende todas as coisas em rimas,

Pode fazê-lo poeta, também, com o tempo –

Mas havia dias, ó terno elfo,

Em que você era a própria Poesia!

 

O que acontece com esse começo maravilhoso quando  éramos todos a “porópria Poesia”? Como todos esses ternos elfos se tornaram assassinos, viciados em drogas, afeitos à violência física e sexual, ditadores cruéis, políticos moralmente degenerados? Como se transformaram em “feridos ambulantes”? Nós os vemos à nossa volta: os tristes, medrosos, os sem fé, ansiosos e deprimidos, repletos de desejos indizíveis. Sem dúvida, essa perda do nosso potencial humano inato é a maior de todas as tragédias.

Quanto mais sabemos sobre o modo pelo qual perdemos nossa espontânea capacidade de nos maravilhar e nossa criatividade, melhor podemos encontrar um meio de recuperá-las. Podemos até fazer alguma coisa no sentido de evitar que isso aconteça às nossas crianças do futuro.

 

John Bradshaw

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Paciência


Apressa-te devagar

 

Serena pressa com a limpidez...

não te demores  em buscar-te...

atravessa sóbrio vales turvos...

encontra-te onde és teu pastor.

 

Descobre-te em paisagens onde

não és lobo nem ovelha, apenas

saudável ser que ama e é amado,

sem a inércia do medo e ânsias.

 

Toda pedra atirada sobre tua luz

lança-te ao abismo e te mergulha

na sombra e rouba-te horizontes

sem que te percebas escravo de ti.

 

Serena pressa na impaciência de

escavar ruínas e emergir límpido

para que não te aconteça de ires

antes mesmo que tenhas vivido.

 

 

Ir. Lauro Daros

 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

PARADOXAL






Constrói-se uma vida para nela habitar,


Adorna-a com pessoas, objetos e status,
 

Na crença de serem fundamentais.


Entulha-se... Desgasta-se... 


Se gasta tempo precioso em alimentar egos.


De repente quer se fazer o retorno


No estágio em que ainda não havia vida egocêntrica.
 

Quanta tolice essa vida supérflua... fugaz...
 

Limitante com mil e um obstáculos impeditivos de sonhar,


Resolve-se em decisão nada depressiva, mas real,


Desvencilhar-se das conquistas e fúteis merecimentos.


Restar-se apenas com o amor nutrido ainda que no silêncio,


Segredar seu amor confesso apenas ao seu coração...


Aconchegar ao outro no esconderijo mais supremo de ti...


Em Deus!


 

Célia Rangel

 

 

 

 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Respiração


Permita-se:

- Respirar a manhã que se descortina ante seus olhos

- Respirar a íntima ligação com o infinito

- Respirar é o compasso do existir até a finitude 

- Respirar com alegria eliminando angústias

- Respirar livre de suas preocupações

- Respirar descravizando as limitações

- Deixe que o Universo o/a respire

- Encontrará o sentido da vida plena


 

Célia Rangel

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ouvir Estrelas


Ora ( direis ) ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso!
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouvi-las,
muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem,
quando estão contigo? "

E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!"
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac


sábado, 16 de agosto de 2014

Um Novo Momento


Ainda que no inverno
 

As manhãs prenunciam


Primavera
 

Pássaros cantantes anunciam


Novo amanhecer


Um sol por testemunha


Das maravilhas diárias


Revela no espelho do rio


A explosão da vida


Ainda que incertos


Olhares viciados em desfazer


Alimentam-se do prenúncio


De um novo tempo em fazer


Só com mente aberta


Poderá se alimentar
 

Dessa clarividência!

 

Célia Rangel

 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

AO BETO



VÃOS


De repente surge um vão oco

Sem nada a despontar

Mas ele espantosamente existe

Pode ser a distância entre pilares

Vazios, inúteis, mas com finalidade

No imaginário construiu rede amorosa

Mesmo que em esforços vãos

Vão para outra realidade

Deixando enorme vão familiar

A não ser jamais preenchido

O que viveu não foi em vão

 

Célia Rangel

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dia Nacional das Artes




"Brasil além do Futebol:Tarsila do Amaral"

Arte é um importante trabalho educativo, pois procura, através das tendências individuais, encaminhar a formação do gosto, estimula a inteligência e contribui para a formação da personalidade do indivíduo, sem ter como preocupação única e mais importante à formação de artistas.

No seu trabalho criador, o indivíduo utiliza e aperfeiçoa processos que desenvolvem a percepção, a imaginação, a observação, o raciocínio, o controle gestual. Capacidade psíquica que influe na aprendizagem. No processo de criação ele pesquisa a própria emoção, liberta-se da tensão, ajusta-se, organiza pensamentos, sentimentos, sensações e forma hábitos de trabalho. Educa-se.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Dia do Estudante!


Estudante,

 

esqueça-se de quase todo o conhecimento, porque a verdade é relativa e transitória, mas preserve a sabedoria – tesouro do coração que enobrece seu caminho;

sabedoria sólida e flexível colhida na convivência com a diversidade e com as gerações: todas as idades aprendem com todas as idades;

tudo é questão de leitura: a relatividade de Einstein torna mais agradável a religião, a filosofia, a psicologia, o saber, a percepção pessoal e social de mundo;

um piscar de olhos e a ciência ultrapassa o tempo da escola e seus passos uniformes e cautelosos;

divirta-se, portanto, com a aparente essência da matéria e do discurso escolar, que “a vida é nova e anda nua vestida apenas com ‘teu’ desejo”, conforme o poeta Mário Quintana;

adquira maturidade suficiente para brincar e refletir beleza enquanto se ocupa com as responsabilidades: vida sem alegria é vida sem Deus e sem senso de realidade;

nada deve impedir-lhe o encanto de abraçar o mistério, a humanidade, a natureza, embarcar na sequência das estações, que diversificam cenários e renovam sua paisagem interior;

tem, você, potencial para recriar-se por dentro, como primaveras sem fim, e fazer o sonho florescer; 

enfim, norteie sua passagem pela Terra nas relações espirituais, humanas e com a natureza: sem amor, a existência torna-se mera  moralidade e legalidade!

 

                                                                                                                                             Ir. Lauro Daros

 


 "O MUNDO DOS SONHOS"

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

SER PAI

Sendo o Pai Nosso

Que está no céu,

Não há muito a dizer,

Pois o pai está aqui

Ao nosso lado

Com suas raízes,

Querendo alçar voos.

 

Sendo o Pai nosso

Ainda que no céu...

Creio estar decepcionado

Com os filhos teus.

Usamos e abusamos

De todos os seus bens,

Herdados sem nenhum esforço...

Sequer temos a dignidade do cuidar.

 

Se assumirmos ser Pai,

Que o façamos

Com a dignidade,

Do olhar fixo e puro

De um filho teu,

Que perpetua na existência

O teu existir.

 

Honre “ser pai.”

 

Célia Rangel

 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

PROCESSOS





De que tecido é feito?

Rasgou panos de amores,

Teceu imagens em estampas,

Remendou tristezas e,

Bordou alegrias.

Tudo em uma só vida.

Em todos os instantes,

Criou e emoldurou

Pensava ser para sempre?

Que homem é: de pedra ou aço?

Ou é impregnado de sentimentos!

Deixa marcas em tudo o que tece.

Por que o fez sentir?

Eterno renascimento ou salvação...

Benevolente com a vida intensa,

Vociferou desconexamente

Com pensamentos impensáveis,

Repetidos à exaustão...

Vê-se agora perdido

De seu controle remoto

Irá vaguear infinitamente

Até permitir ouvir sua intuição...

O processo será mais fácil do que pensa.

 

Célia Rangel

domingo, 3 de agosto de 2014

ESCAPE



História de nostalgia

Existência débil em emoções

Tem na leitura às madrugadas

O infinito olhar sufocante a percorrer

Mudança de perspectiva

Pensamento aberto

Fuga da verdade imposta

Absoluta coragem em um ritmo

Que envolva a novidade de viver

Tantas horas não marcadas

Pelo relógio do tempo na multidão

Se perde como um nada

À procura de um tudo

No luxo do escapismo...

 

Célia Rangel

 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

SILÊNCIO

“... conhecimento da fala mas não do silêncio,
conhecimento das palavras e ignorância da Palavra...”
T.S. Eliot

Uma bolha sobe do fundo do mar...
Uma palavra sobe das funduras do nosso silencio
inesperada,
impensada,
emissária de um mundo esquecido,
perdido:
suspiro,
nosso mistério,
nossa verdade,
oração.

Há palavras que dizemos porque delas nos lembramos.
Possuídas, guardadas, ficam lá, à espera,
e vêm, obedientes, como animais
domésticos...

Mas há palavras que não dizemos:  elas se dizem,
apesar de esquecidas.
Não são nossas:
moram em nós, sem permissão, intrusas
e não atendem a nossa voz.
São como o Vento,
que sopra onde quer.
E não sabemos nem como veio e nem para onde vai.
Só ouvimos o sopro.
Nós dizemos: só ouvimos.
Assim as palavras da oração, esquecidas:
Elas se dizem.
Fica a surpresa de que um pássaro selvagem como aquele
more em nós sem que o soubéssemos.

A palavra que diz a nossa verdade não habita em nosso saber.
Foi expulsa da morada dos pensamentos.
Sua aparência era estranha, dava medo.
Agora habita em porões,
mais no fundo:
longe do que sabemos,
ali, onde não pensamos,
ao abrigo da luz diurna,
no lugar dos sonhos,
suspiros sem palavras.

Elas são tímidas.
Não se misturam.
Falam uma língua estranha.
Babel,
que não entendemos,
e dizem do ar frio das montanhas
e da escuridão dos abismos.
Mas somos moradores das planícies
onde todos falam para não ouvir...

Temos medo das palavras que habitam as bolhas submarinas.
Por isso falamos.
Matracas: ferro na madeira;
clate/ clate/ clate/ clate/ clate,
palavras
contra a
Palavra.
Horror ao silêncio: nele moram as palavras de que fugimos:
Sobem do fundo do mar quando se sabem sozinhas...

Ensina-nos a orar porque já não sabemos...

Quando orares
não sejas como os artistas de palco:
falam das palavras que não são suas, de outros,
decoradas,
e os seus rostos não são rostos,
máscaras.
Não querem ouvir as próprias palavras
(porque são ocos, não as têm...).
Seus ouvidos só ouvem os aplausos:
moscas, prisioneiros das teias alheias...

Entra no silêncio,
longe dos outros
e ouve as palavras que se dirão
depois de uma longa espera...
Terias coragem de exibir tua nudez frente aos estranhos?
Eles irão rir...
Como, então, poderias orar na sua frente?
Oração, nudez completa,
palavra que sobe do fundo do escuro
e revela...
Perante Deus...
Somente ele tem olhos mansos o bastante para
contemplar a nossa nudez e continuar a dizer:
“É muito bom que você exista...”
Nem mesmo nós...

Entra no silêncio
longe das muitas palavras
e escuta uma única Palavra
que irá subir do fundo do mar.
Uma única Palavra é mais poderosa que muitas:
pureza de coração é desejar uma sócoisa...
Uma única Palavra:
aquela que dirias
se fosse a última a ser dita.
Basta ouvir uma vez e, então,
o silêncio...
Como Vênus, brilhante,
na imensidão azul do sol poente...
Antes que tu a tivesses ouvido,
o seu suspiro já reverberava pela eternidade...
Enquanto ela morava no teu esquecimento,
Deus já a ouvia
e tremia...

Faze silêncio...
Ouve...


Fonte:
ALVES, Rubem

Pai Nosso – Ed.Paulus – São Paulo, 1987