sábado, 5 de dezembro de 2015

Reflexão

Luzes e sombras do Natal
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
Nascer, renascer e crescer implicam, ao mesmo tempo, dor e esperança. A dor tempera o caráter e a personalidade, da mesma forma que o fogo tempera o aço. A esperança põe em marcha os pés, passo a passo, sem dúvida, mas com um horizonte a ser alcançado. Dor e esperança, entrelaçando-se num amplexo único e paradoxal, depuram e purificam as expectativas. Corrigem a rota da travessia humana sobre a face da terra, desviando-a de atalhos supérfluas e secundárias, para concentrá-la sobre o foco dos objetivos essenciais e inegociáveis. Quem muito caminha e quem passa pela tormenta, aprende a ater-se àquilo que lhe é absolutamente indispensável. E aprende, igualmente, que o peso do supérfluo retarda o caminheiro.
Eis uma das principais motivações dos grandes momentos e das grandes comemorações, como o Natal, o Ano Novo e a Páscoa, por exemplo. Com efeito, o contexto de tais celebrações comportam quase sempre um terreno marcado, simultaneamente, por sofrimento e libertação. Convém não esquecer que a ambiguidade é condição natural da existência humana. Todo sofrimento traz consigo a luta e a ansiedade pela libertação e esta, por sua vez, representa uma janela aberta diante dos momentos mais difíceis e opressivos, tanto da vida pessoal, familiar e comunitária quanto da trajetória socioeconômiva e político-cultural. Dor e esperança constituem, assim, dois aspectos inseparáveis da ambivalência própria de toda pessoa humana, duas faces da mesma moeda. Luz e sombra são irmãs siamesas, uma estritamente ligada à outra.
A dor encontra-se estampada no rosto de toda Família de Nazaré, particularmente em Maria, mulher grávida, às vésperas do parto. Em terra estrangeira, José e Maria logo se deparam com obstáculos. Dando à luz o seu filho primogênito, “ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7). A passagem de Ano comporta uma dor menor, mais sutil e quase imperpectível, mas nem por isso inexistente. Dificilmente se deixa 2014 para entrar em 2015 sem uma ponta de saudade, a sensação de que algo ficou definitivamente para trás. É como se um tempo de nossa vida fosse sepultado de forma irremediável, um pedaço do corpo mutilado. Improvisamente apodera-se do coração, da alma e das entranhas um certo sentimento de tristeza, de nostalgia. Quanto à Páscoa, desnecessário sublinhar que se trata de uma festa precedida, de um lado, pela lembrança da escravidão, no Egito, e, de outro, pela morte atros numa cruz.
O importante é dar-se conta que a dor do parto, a sensação de perda com o final do ano e a ignomínia da crucifixão, em grau maior ou menor, carregam embutida uma luz de esperança. É uma nova criança que vem ao mundo, um novo ano que recomeça e a ressurreição que abre a porta para a vida sem ocaso. Embora nu, frágil e indefeso, como todo recém-nascido, o Menino que nasce em Belém vem assinalado por uma estrela que ilumina o caminho dos que o buscam: os pobres, os pastores, os reis magos, e tantas outras “multidões cansadas e abatidas” ao longo dos séculos... Pequena chama que jamais nos deixa órfãos, sós e perdidos na noite escura.
Eis a luz oculta, mas sempre presente, em toda dor. Mais que dor física, aqui enfatizamos as situações-limite de toda vida humana: doença incurável, separação, morte, fracasso, impotência, desilusão, sensação de inutilidade... São os momentos em que, no segredo do coração ou com dilacerantes gemidos, consciente ou inconscientemente, em palavras ou pensamentos, expressamos mais ou menos o seguinte: “Até aqui eu fui capaz de caminhar com as próprias pernas: às vezes cabaleando, titubeando, me arrastando, pedindo ajuda a um e outro; agora, porém, minhas forças se  esgotaram; não tenho energias para seguir adiante; frágil e inerme, entrego-me em tuas mãos, Senhor!” De uma forma ou de outra, quem não experimentou tais situações em que o desespero bate à porta? Situações em que um abismo parece abrir-se e o chão foge sob nossos pés.
É então que a estrela faz sentido! Em meio à noite escura, brilha uma esperança, por mais pequena e tênue que seja. Cabem as palavras de Paulo: “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas, se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos“ (Rm 8,22-25).
A criança que está para nascer é a luz que ilumina as dores de parto. A expectativa de melhores 365 dias é a luz que ilumina a despedida do ano velho. A liberdade é a luz que ilumina a dureza e a brutalidade da escravidão opressora. A vida eterna na casa do Pai é a luz que ilumina a morte e o aparente abandono por parte de Deus. A criação renovada é a luz que ilumina a imagem de Paulo, a Jerusalém Celeste, onde “Ele vai enxugar toda lágrima dos olhos deles, nunca mais haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor” (Ap 21, 4). De igual modo, ainda que frágeis e invisíveis, pequenas luzes se escondem em meio ao sofrimento das situações-limite. Tão pequenas que não raro necessitamos de alguém que nos ajude a abrir os olhos para ver seu brilho.
Para além da noite e das nuvens carregadas, o sol sempre nos haverá de trazer uma a aurora, fazendo renascer o novo dia; para além das tempestades que à primeira vista parecem intransponíveis à nossa minúscula embarcação, esperam-nos águas serenas e tranquilas, que nos levarão ao porto seguro; para além do deserto árido e onde o vento varreu todos os rastros, estimula-nos a expectativa de um oásis e de um encontro; para além da solidão e do desespero, aguardam-nos um olhar límpido, um sorriso largo, um toque amigo, um abraço forte que nos faz retornar ao caminho; para além do silêncio mudo e estéril, “o Verbo se faz carne e arma sua tenda entre nós” (Jo 1,14), apontando novas perspectivas para a história; para além dos tiranos e suas tiranias, acendem-se pequenas chamas que nos convidam à liberdade; para além da fome e da sede, a mesa farta, livre e aberta a todos nos convida ao banquete. “A lágrima e o riso são vizinhos” – diz o escritor português José Saramago.
Cada festividade é uma parada: parada e encruzilhada! O próprio calendário como que nos propõe tais paradas periódicas. Encruzilhada, não custa repetir, pressupõe um duplo aspecto: bifurcação de caminhos e a necessidade de tomar uma direção, de fazer uma escolha. Daí o vínculo indissociável entre tais festividades celebrativas – Natal, Ano Novo, Páscoa – e um processo de conversão. O horizonte se amplia e, diante das diferentes oportunidades, uma vez mais e sempre, somos convidados a parar, refletir e a fazer e/ou renovar a opção. Semelhante processo exige, por outro lado, uma focalização crescente sobre o objetivo a ser alcançado. O caminho só pode ser retomado após o estudo sério das distintas alternativas.
A vertiginosa velocidade das mudanças, os ruídos de um contexto cada vez mais urbano, a ânsia e os apelos frenéticos da vida contemporâneo, os atrativos mágicos do consumismo e a fragmentação dos ideais positivamente tradicionais – entre outros fatores – obrigam-nos poupar energias. Ao invés da dispersão atrás de novidades diárias e da tentativa de correr atrás do ritmo alucinado do cotidiano, a parada/encruzilhada consiste em um momento de concentração. Disso resulta uma atenção especial sobre o que é absoluto, desfazendo-nos progressivamente daquilo que é relativo. Faz-se necessário relativizar algumas coisas para focalizar-se no essencial. Relativizar aqui não quer dizer desprezar ou abandonar, e sim colocar no seu devido lugar. Saber distinguir entre as “muitas coisas” (plural) e “uma só coisa necessária” (singular) do relato evangélico (Lc 10,38-42). Em síntese, trata-se de um convite, sempre renovado, a não sobrecarregar o fardo de nossa existência.


Roma, 20 de dezembro de 2014

3 comentários:

  1. Olá, querida Célia
    A cada dia basta o seu mal...
    Natal é tempo de desvencilharmos do inútil e começar vida totalmente nova...
    Bjm fraterno

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  2. Linda reflexão escolhida para nos mostrar a verdadeira simbologia do Natal, Ano Novo e Páscoa. pois viver é mesmo isso, nos parece muitas vezes muito difícil, mas é por causa das ilusões.
    Deixar a Vida fluir sem ilusões, podendo assim estarmos sempre em estado de gratidão, amo agradecer, pois assim não cabe em mim reclamações!
    Abraços linda amiga Célia, sempre com textos muito bons, tanto os escritos por si mesma quanto os escolhidos a dedo para nos dar um bom recado!

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  3. Natal, época para lembrarmo-nos ainda mais do Amado Mestre Jesus. O homem moderno deveria estar mais capacitado para compreender os ensinamentos de Jesus, mas, vemos que não é bem assim, o Dia de Natal está banalizado e poucos refletem sobre sua importância...
    Essa mensagem está perfeita, Célia.
    Beijos e muita Paz!

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