sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Beleza & Belezas... Reflexão de Vida!


Beleza e belezas

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma, 14 de setembro de 2016



Dois homens e duas mulheres: Dom Elder Câmara, Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela e Cora Coralina (e quantas outras figuras poderiam aumentar a lista). Quatro figuras que desmentem categoricamente a ditadura da belezza imposta sobretudo nos países do ocidente, revestida pela tirania da eterna juventude. Nesta tirania prevalecem a idade, a altura, o peso, e outros atributos externos e estéticos, mais ou menos padronizados, além de todas as pomadas, cosméticos e sacrifícios para se manter no brilho da onda. Onda é a palavra justa, pois agora tais belezas (plural) estão na “crista da onda”, porém logo mais poderão afundar-se no insucesso.


Entretanto, os dois homens e duas mulheres acima elencados, entre dezenas e centenas de outras pessoas, exibem um outro tipo de beleza: uma beleza anciã (singular), de cabelos brancos, pele encarquilhada, dorso às vezes encurvado, pés e mãos trêmulas. Beleza que vem do íntimo do próprio espírito, construída através de longos e faticosos anos, destacada pelo respeito e a gratidão, a dignidade e a reverência. Beleza que ilumina não com o espetáculo tetral ou cinematográfico de holofotes, câmaras e refletores, mas através de um olhar fundo, doce e sábio; de rugas cavadas por muitas primaveras e inversos, que misturam e fundem pranto e canto, dores e esperanças, sonhos e lutas; de sorrisos cuja ternura e carinho confortam, animam e revigoram.


Evidentemente, não se trata de uma beleza que se adapta facilmente aos padrões dos meios de comunicação social, da opinião pública e da moda. Antes, é uma beleza caseira, não rado escondida, acostumada ao dia-a-dia. Não busca plateia, desfiles e aplausos – busca rostos, corações e almas. Não se empolga com a aparência imediata, regada profusamente de cores, luzes e sons – mas a um árduo e longo percurso onde as sementes, antes de bucar o céu, o ar livre e o sol, mergulham as raízes no solo úmido e escuro da terra.


A respeito da ditadura da beleza, poderíamos repetir o que diz o salmo sobre a erva que se renova: “ de manhã ela germina e brota, de tarde a cortam e ela seca” (Sl 90,6). “O homem é como um sopro, e seus dias são como sombra que passa” – lembra outro slamo (Sl 144,4). Beleza da moda, efêmera, passageira, momentânea, como as pétalas de uma flor: hoje, na planta, viceja e encanta o passante que a contempla; amanhã, no chão, será pisoteada e esmagada pelo mesmo transeunte.


Não ocorre o mesmo com a beleza anciã. Há nesta qualquer coisa de frágil e eterno ao mesmo tempo. Algo que parece não suster-se sobre as pernas ou o corpo debilitado, mas que haverá de durar para sempre. Um segredo que dificilmente pode ser passado de pessoa a pessoa, e menos ainda de geração a geração. Permanece, porém, impresso com caracteres de fogo no coração de quem foi capaz de desvendá-lo na pequenez e fraqueza mesmas de determinadas pessoas. Se é verdade que a vida é uma escola, aqui encontramos os melhores alunos e alunas. Diferentemente das pessoas acima nomeadas, alguns serão analfabetos, muitos sequer carregam títulos, outros vivem completamente no anonimato, outros ainda jamais terão um calendário na parede.


Mas a todos e todas é comum um mistério que escapa às categorias da compreensão humana. A razão é pobre demais para abarcar semelhante riqueza ao mesmo tempo escondida e aberta aos olhos do coração. Talvez esse mistério seja forjado na solidão consigo mesmo, no diálogo aberto com outras pessoas, na contemplação da beleza que revela todo o universo, na observação atenta do quotidiano ou na intimidade com Deus. Ou será o “tesouro oculto no campo”, descoberto e guardado como a “pérola mais preciosa” (Mt 13,44-46). O maior valor que a vida possa nos oferecer. O fato é que no comportamento de tais pessoas podemos “ver” um véu invisível, límpido e transparente, que inspira confiança e que nos faz afirmar com fé e esperança que, sem dúvida, “a vida vale a pena ser vivida”.

http://www.crbnacional.org.br/site2015/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=60&Itemid=135

7 comentários:

  1. Celia, vc sempre com textos reflexivos e sua análise ficou perfeita! Quanta vida e luz há nesses olhares que são mais cheios de beleza que qualquer jovenzinho! bjs,

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  2. [“a vida vale a pena ser vivida”],
    Mesmo que a dor nos apoquente.
    Dar um tempo, do que há na nossa vida,
    Ajuda o velho, o novo e muita gente.

    Beijo
    SOL

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  3. Boa Tarde, querida Célia!
    tantas belezas não põem mesa... já diziam nossos avós!
    A beleza interior deve sempre resplandecer e, quando isso acontece, tudo fica mais belo em si...
    Bjm muito fraterno

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  4. Que bom passar aqui e encontrar uma mensagem que nos faz tão bem e tanta reflexão provoca!Adorei! bjs, chica

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  5. "A vida vale a pena ser vivida", seu post repleto de conscientização, os jovens não pensam na velhice, isso é certo, quando começamos a pensar nela é porque já vivemos o tempo da conscientização de que, há beleza em todas as idades!
    Amei ler, abraços amiga Célia!

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  6. Excelente e meritório destaque, Célia.
    Sem beleza interior, as belezas frívolas parecem pantomimos,
    Um artigo de profunda qualidade.
    Abraço.
    ~~~

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  7. Boa tarde, querida Célia!
    Texto excelente para refletirmos sobre a vida, a idade, enfim o que sentimos. Quando todos se conscientizarem sobra o real valor da beleza, ou onde ela realmente vale a pena, aí, teremos um mundo melhor. Tenha um ótimo final de semana!

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